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Frederico Romão

Na Base – Em que consistiu sua pesquisa?

Frederico Romão − Os dados trabalhados na pesquisa, focados no mundo do petróleo, trazem à cena os eventos ocorridos desde as primeiras movimentações pela criação da Petrobras, em 1934, durante o governo do presidente Getúlio Vargas, até a greve de 30 dias, durante o primeiro governo do presidente Fernando Henrique, em 1995. Em função da greve e olhando para a greve vamos buscar toda uma série de eventos políticos, sociais e econômicos, no Brasil e no mundo. Inclusive, pesquisamos na Inglaterra as greves dos mineiros britânicos e dos aeroviários nos EUA que de certa forma estão relacionadas com o movimento dos petroleiros. Investigamos ainda os motivos da intensa repressão do governo FHC à greve de 95, que também foi perseguida pelo Judiciário e pela imprensa. Nesse período, a greve era bombardeada pela grande imprensa nacional todo dia, e não tanto pela imprensa local.

NB − Baseado em seus estudos, o senhor pode dizer que existiu algum diferencial nesta greve, em relação às de outras categorias?

FR – Durante a pesquisa nos perguntávamos o que esta categoria tem de diferente das outras que a fez resistir tanto tempo, mesmo com a repressão e perseguição do governo FHC. Inclusive, porque as outras categorias no decorrer do processo não suportaram as pressões e acabaram ficando só os petroleiros. Mesmo com a presença do exército, eles resistiram um mês e quando saíram da greve saíram de forma organizada, o resultado disso é que a categoria permanece forte até hoje. Dentre as respostas da pesquisa, uma é muito geral, a greve foi duramente reprimida porque o projeto neoliberal de FHC não permitia contestação e os petroleiros resistiram de forma bastante efetiva, inclusive com uma greve. Nesse momento, os trabalhadores perderam inúmeros direitos, inclusive alguns deles não são repostos até hoje. A história dos petroleiros é uma história de resistência e não é uma categoria que vive olhando para o próprio umbigo. Além disso, é uma categoria que apesar de conseguir unidade na ação, convive com a disputa interna de ideias.

NB − E como você a relação dos petroleiros com a Petrobras ?

FR − Os petroleiros pelos salários, pela própria empresa são circundados com certo preconceito, é como se fosse uma categoria corporativa, elitista, de privilegiados, e não é isso que os dados da pesquisa mostram. A própria criação da Petrobras surge como resultado das lutas dos movimentos sociais na campanha O Petróleo é Nosso, na década de 50. Neste sentido, alguns pesquisadores identificam aí um caráter mitológico, pois não é mais uma empresa estatal, identificamos a transmissão aos seus trabalhadores elementos como dignidade, respeito às normas, coragem, ela é uma empresa que muito mais que normas técnicas, ela conforma valores societários muito importantes e muito fortes entre os petroleiros.

NB − Quais os fatos históricos que o senhor destacaria na luta do movimento sindical petroleiro?

FR – A história e a luta dos trabalhadores petroleiros no Brasil se confundem com a própria história política, econômica e social do povo brasileiro, no século 20. Ao analisar o período que vai desde a fundação da Petrobrás, em 1953 até 1964, quando o Brasil passa por períodos democráticos, os petroleiros criam Sindicatos e avançam nas conquistas. A Bahia tem um papel importante que marcaram essa relação. Na década de 60, os petroleiros se mobilizavam contra o golpe, com greves exigindo a legalidade quando já começava a se prenunciar o golpe que viria a ocorrer em 64. Com o golpe, os petroleiros são levados ao porão, praticamente todos os Sindicatos de petróleo sofrem intervenção e seus diretores são demitidos, cassados, presos e torturados. Inclusive, existem denúncias de um navio ancorado na Baia de Todos os Santos que serviu de prisão para os trabalhadores. Em 68, os petroleiros fazem greves de fome para pedir a saída dos militares e depois por salários. No período de redemocratização, final dos anos 70, surge o movimento denominado “Novo Sindicalismo” e os petroleiros participam desse movimento. Sempre se fala muito nas greves do ABC paulista, mas em 83 ocorre uma greve dos petroleiros que para as duas principais refinarias: Paulínia e Bahia. Por conta disso, depois os metalúrgicos entram em greve, em solidariedade aos petroleiros. Novamente, os sindicatos sofrem intervenção. Quando se fala das lutas do movimento sindical nacional, esta greve não é lembrada e acho que é por puro preconceito.

NB – Cite alguns pontos interessantes descobertos com a pesquisa?

FR − Outra questão que fica clara quando se analisam os dados da pesquisa, é a rapidez com que os petroleiros se organizam. Por exemplo, aqui a Rlam é inaugurada em 50, em 54 já contava com uma associação dos petroleiros e em 57 surge o Sindicato. Um dado curioso, em Mataripe, quando começa a exploração do petróleo, os brasileiros não podiam passar na mesma rua que os gringos, então os baianos fazem greve para acabar com isso. Outro fato, os salários entre as unidades da Petrobras eram muito diferenciados, os petroleiros fazem greve para igualar salários (Equipara ou Aqui Para). Outra questão interessante e antes abordada rapidamente é a capacidade de resistência dos Sindicatos. Mesmo sob intervenção, os trabalhadores pressionaram e caíram todos os interventores. Ainda traçando uma linha histórica, na década de 80, é uma década de avanços novamente no Brasil para os trabalhadores, de várias conquistas, Sindicatos são criados, surge a CUT, década de 90 década do neoliberalismo e aí os trabalhadores passam a sofrer redução de direitos. Quem faz o enfrentamento, são os petroleiros.



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