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Kjeld Jakobsen

Nesta entrevista, Kjeld Jakobsen, ex-secretário de relações internacionais da CUT e da Prefeitura de São Paulo e consultor do Comitê Organizador do Fórum Social Mundial Temático da Bahia, fala sobre o grande evento que começa esta semana em Salvador.

Na Base - Que atividades foram programadas para o Fórum Social Temático Bahia?

Kjeld Jakobsen - Há muitas atividades, inclusive várias auto-gestionadas por diferentes organizações sindicais e sociais muito interessantes. Os debates propostos pelo Comitê Organizador incluem 16 mesas centrais, uma Conferência Magna proferida por Susan George e alguns eventos especiais como a homenagem aos 50 anos da Revolução Cubana e um encontro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social com o movimento social. As mesas versam sobre temas muito atuais com ênfase para a discussão da crise mundial, em particular a convergência entre seus diferentes aspectos como a economia, a energia, alimentação e mudanças climáticas. Os temas de gênero, raça, trabalho, direitos humanos, governança global, democracia, entre outros estão contemplados de alguma forma. Para maiores detalhes é importante acompanhar o site do Fórum www.fsmtbahia.com.br .

NB - Governos e sociedade civil vão se reunir para debater a crise no encontro Diálogos e Controvérsias, na tarde do dia 30. Quais são as reivindicações do movimento social, popular e sindical, em relação à questão? Podemos esperar resultados no final do encontro?

KJ - Não há de parte do Comitê Organizador nenhuma pauta de reivindicações, pois não faria sentido apresentar alguma dessa maneira uma vez que se trata de uma reunião de diálogo e não de negociação. A proposta do Comitê para o conteúdo deste debate é: Crise mundial, suas convergências e o mundo pós-crise; Relações sul - sul e governança global; Novo paradigma de governança democrática com participação social. O debate sobre a crise e o posicionamento propositivo dos Chefes de Estado para superá-la quanto à indução do desenvolvimento, políticas de emprego, políticas sociais, justiça nas negociações sobre mudanças climáticas, integração dos países do sul e o que chamamos de “governar com” ou “governo ponto org” de abertura para a sociedade são todos pontos muito importantes. Creio que se as iniciativas de abrir discussões diretamente com os Chefes de Estado replicar, começaremos a dar encaminhamentos para os diagnósticos e propostas que nascem no Fórum Social Mundial que, aliás, é um grande anseio de muitos que participam desse processo desde 2001.

NB - O que está por trás das afirmações de que a realização do Fórum na Bahia vai provocar uma divisão na organização do FSM?

KJ - Esta é uma pauta da grande imprensa que sempre se opôs à iniciativa do Fórum Social Mundial e que sempre o combateu. Este ano não há evento centralizado, somente em 2011 em Dacar no Senegal, mas há cerca de 27 atividades em diversos lugares do mundo, sendo dois deles no Brasil, Porto Alegre e Salvador. A mídia aproveita que são dois eventos e que os temas centrais das discussões são diferentes para vender a versão da cizânia. Em Porto Alegre, além dos vários debates sobre a conjuntura há uma atividade central de avaliação dos quase dez anos de FSM, enquanto em Salvador o foco principal é a crise e o Diálogo e Controvérsias. Não há qualquer contradição entre as duas atividades e elas se complementam. O Fórum começa em Porto Alegre no dia 25 de janeiro, conclui dia 31 em Salvador e no próximo ano vamos todos, juntos, a Dacar.

NB - Segmentos mais radicais criticam o apoio do governo da Bahia à realização do Fórum. Em sua opinião esse apoio vai interferir na organização do evento?

KJ - As várias edições do Fórum sempre contaram com apoio governamental, pois entendemos que facilitar, não promover ou organizar, o movimento social é um dever do Estado. Isso é legítimo e não significa de nenhuma maneira interferência do Estado na autonomia do movimento social, a não ser que este o permita, mas aí já não é um problema do apoio ao Fórum e sim de concepção política ou debilidade.O importante é que o movimento social seja organizado e forte para que possa reivindicar o cumprimento das obrigações do Estado no que tange às políticas públicas necessárias para atender as necessidades da sociedade. Se não houvesse o apoio do Estado, o Fórum Social Mundial poderia acontecer, mas seria muito mais limitado, pois, pelo menos no Brasil, o movimento social não tem recursos excedentes para pagar passagens de convidados nacionais e internacionais, sua hospedagem, tradução simultânea, entre outros custos necessários para fazer um bom evento. Interessante, é que os críticos radicais se somam aos críticos da direita na condenação à relação do movimento sindical e social com o Estado. Embora apresentem diferentes argumentos, no fundo, a visão de ambos quanto ao papel do Estado coincide no aspecto liberal e promoção do individualismo.



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